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6 de janeiro de 2011 | Artigos

Capítulo 1 do livro “O Despertar do Tigre – Curando o Trauma”, Peter Levine, Ph.D. – Summus editorial.
Tradução:  Sonia Gomes

“[…] nossa mente ainda tem suas Áfricas mais escuras, suas Bornéus não mapeadas e bacias Amazônicas”. – Aldous Huxley

O Plano da Natureza

Uma manada de impalas pasta pacificamente num vale exuberante. De repente, o vento muda de direção, trazendo um cheiro novo mas familiar. Os impalas sentem o perigo no ar e ficam imediatamente tensos e alertas, prontos para correr ao menor sinal. Eles cheiram o ar, olham e escutam com cuidado por alguns momentos, mas quando não aparece nenhuma ameaça, os animais voltam a pastar, relaxados mas ainda vigilantes.

Sentindo o momento, uma onça, que estava à espreita, salta de seu esconderijo no matagal denso. Como se fosse um só organismo, a manada dirige-se rapidamente na direção de moitas protetoras na extremidade do vale. Um jovem impala titubeia por meio segundo, e então se recupera. Mas é tarde demais. Como uma mancha no ar, a onça dá o bote na direção de sua vítima, e a caça acontece na surpreendente velocidade de 90 a 100 quilômetros por hora.

No momento do contato (ou logo antes dele), o jovem impala cai no chão, rendendo-se à morte iminente. Mas ele pode não estar ferido ainda. O animal imóvel como pedra está fingindo estar morto. Ele entrou instintivamente num estado alterado de consciência, compartilhado por todos os mamíferos quando a morte parece iminente. Muitos povos indígenas encaram este fenômeno como uma entrega do espírito da presa ao predador; o que, de certo modo, é.

Os fisiologistas chamam esse estado alterado de resposta de “imobilidade” ou de “congelamento”. Ela é uma das três respostas primárias disponíveis aos répteis e mamíferos quando estes são confrontados por uma ameaça avassaladora. As outras duas, luta e fuga, são muito mais familiares para a maioria de nós. Sabemos pouco sobre a resposta de imobilidade. Contudo, o meu trabalho nos últimos 25 anos levou-me a acreditar que este é o fator isolado mais importante na descoberta do mistério do trauma humano.

A natureza desenvolveu a resposta de imobilidade por duas boas razões. Primeira, porque ela funciona como uma estratégia de sobrevivência de último momento. Você poderia entender isso como “se fingir de morto”. Veja, por exemplo, o jovem impala. Há uma possibilidade de que a onça decida arrastar sua presa “morta” para um lugar a salvo de outros predadores; ou para sua toca, onde a comida pode depois ser compartilhada com seus filhotes. Durante esse período, o impala poderia despertar de seu estado congelado e realizar uma fuga impetuosa, num momento em que não estivesse sendo vigiado. Quando estiver fora de perigo, o animal irá de literalmente sacudir para fora os efeitos residuais da resposta de imobilidade e reassumir pleno controle de seu corpo. Então ele voltará à sua vida normal como se nada tivesse acontecido. Segunda, ao congelar, o impala (e os humanos) entra num estado alterado no qual não sente dor. Para o impala, isso significa que ele não terá de sofrer enquanto estiver sendo despedaçado pelos dentes e garras afiadas da onça.

A maioria das culturas humanas tende a julgar essa entrega instintiva em face da ameaça avassaladora como uma fraqueza equivalente à covardia. Contudo, subjacente a esse julgamento existe um profundo medo humano diante da imobilidade. Nós a evitamos porque ela é um estado muito semelhante à morte. Essa aversão é compreensível, mas pagamos caro por ela. A evidência fisiológica mostra claramente que a habilidade de entrar e de sair dessa resposta natural é a chave para evitar os efeitos debilitantes do trauma. Ela é uma dádiva do selvagem para nós.

Por que Olhar para o Selvagem?
O Trauma é Fisiológico

“Tão certo como ouvimos o sangue em nossos ouvidos, os ecos de um milhão de guinchos noturnos de macacos, cuja última visão do mundo foram os olhos de uma pantera, têm suas marcas em nossos sistemas nervosos. ” – Paul Shepard .1

A chave para curar os sintomas traumáticos em humanos está em nossa fisiologia. Quando confrontados com o que é percebido como uma ameaça inevitável ou avassaladora, os humanos e os animais usam a resposta de imobilidade. É importante entender que essa função é involuntária. Isso simplesmente significa o mecanismo fisiológico que governa essa resposta está nas partes primitivas instintivas de nosso cérebro e sistema nervoso, e que não está sob nosso controle consciente. É por isso que sinto que o estudo do comportamento animal é essencial para a compreensão e a cura do trauma humano.

As porções instintivas e involuntárias do cérebro e do sistema nervoso humano são virtualmente idênticas às dos outros mamíferos e mesmo às dos répteis. O nosso cérebro, que com freqüência é chamado de cérebro trino, consiste em três sistemas integrados. As três partes são normalmente conhecidas como o cérebro reptiliano (instintivo), o cérebro mamífero ou límbico (emocional) e o cérebro humano ou neocórtex (racional). Como as partes do cérebro que são ativadas por uma situação percebida como de ameaça à vida são as que compartilhamos com os animais, podemos aprender muito ao estudar como alguns animais, como o impala, evitam a traumatização. Para levar isso um passo mais adiante, acredito que a chave para curar os sintomas traumáticos nos humanos está em sermos capazes de espelhar a adaptação fluida dos animais selvagens quando eles se sacodem e saem da resposta de imobilidade e reassumem novamente toda a sua mobilidade e funcionalidade.

Ao contrário dos animais selvagens, nós, humanos, quando ameaçados, nunca achamos fácil resolver o dilema: lutar ou fugir. Esse dilema vem, pelo menos em parte, do fato de que nossa espécie teve tanto o papel de predador quanto o de presa. Os povos pré-históricos, embora muitos fossem caçadores, passavam longos dias, amontoados em cavernas frias, sabendo que poderiam, a qualquer momento, ser apanhados e despedaçados.

Nossas chances de sobrevivência aumentaram depois que nos juntamos em grupos maiores, descobrimos o fogo e inventamos ferramentas, muitas das quais eram armas usadas tanto para a caça quanto para a autodefesa. Contudo, a memória genética de ter sido uma presa fácil se manteve em nosso cérebro e sistema nervosos. Sem ter a rapidez de um impala, nem as garras e dentes afiados de uma onça à espreita, nosso cérebro humano freqüentemente duvida de nossa habilidade de agir de um modo que preserve a vida. Essa incerteza nos tornou especialmente vulneráveis aos poderosos efeitos do trauma. Animais como o ágeis e rápidos impalas sabem que eles são as presas e têm intimidade com seus recursos de sobrevivência. Eles sentem o que precisam fazer e o fazem. Do mesmo modo, a velocidade de 100 quilômetros por hora e os dentes e garras perigosos da onça fazem com que ela seja um predador seguro de si.

A linha não está tão claramente demarcada para o animal humano. Quando nos confrontamos com uma situação de ameaça à vida, o nosso cérebro racional tende a ficar confuso e dominar nossos impulsos instintivos. Embora essa dominância possa ocorrer por uma boa razão, a confusão que a acompanha cria o cenário para o que chamo de “Complexo de Medusa” – o drama chamado trauma.

A confusão humana que pode resultar do confronto com a morte pode nos transformar em pedra, como acontecia no mito grego da Medusa. Podemos literalmente congelar de medo, o que irá resultar na criação de sintomas traumáticos.

O trauma é um fato que permeia a vida moderna. A maioria de nós foi traumatizada, não só os soldados ou as vítimas de abuso ou de ataques. As fontes, assim como as conseqüências, do trauma abrangem uma larga escala de eventos, e freqüentemente estão ocultas de nossa consciência. Elas incluem desastres naturais (isto é, terremotos, tornados, inundações e incêndios), exposição à violência, acidentes, quedas, doenças graves, perda súbita de uma pessoa amada, procedimentos cirúrgicos, médicos e dentários, partos difíceis e mesmo altos níveis de estresse durante a gestação.

Felizmente, como somos seres instintivos, com capacidade de sentir, responder e refletir, nós possuímos o potencial inato para curar até mesmo os ferimentos traumáticos mais debilitantes. Também estou convencido de que, como comunidade humana global, podemos começar a nos curar dos efeitos de traumas sociais de larga escala, como guerras e desastres naturais.

Trata-se de Energia

Os sintomas traumáticos não são causados pelo acontecimento desencadeador em si mesmo. Eles vêm do resíduo congelado de energia que não foi resolvido e descarregado; esse resíduo permanece preso no sistema nervoso onde pode causar danos a nosso corpo e espírito. Os sintomas em longo prazo alarmantes, debilitantes e freqüentemente bizarros do DSPT* se desenvolvem quando não podemos completar o processo de entrar, atravessar e sair da “imobilidade” ou do estado de “congelamento”. Contudo, podemos descongelar ao iniciar e incentivar nosso impulso inato para retornar a um estado de equilíbrio dinâmico.

Voltemos à caçada. O sistema orgânico de nosso jovem impala, enquanto foge da onça que o persegue, está carregado com uma energia de 100 quilômetros por hora. No momento em que a onça desfere seu ataque final, o impala cai. Externamente ele parece imóvel e morto, mas internamente seu sistema nervoso ainda está supercarregado com a energia que lhe permitia correr 100 quilômetros por hora. Embora ele esteja parado como morto, o que está acontecendo no corpo do impala é semelhante ao que ocorre em seu carro se você pisar no acelerador e no freio ao mesmo tempo. A diferença entre a corrida interna do sistema nervoso (motor) e a imobilidade externa (freio) do corpo cria uma poderosa turbulência, semelhante a um tornado, dentro do corpo.

Esse tornado de energia é o ponto focal a partir do qual se formam os sintomas de estresse traumático. Para visualizar o poder dessa energia, imagine que você está fazendo amor com seu parceiro, que você está quase no clímax, quando de repente alguma força exterior o faz parar. Agora, multiplique essa sensação de contenção por cem, e você pode se aproximar da quantidade de energia evocada por uma experiência que ameace a vida.

Um humano ameaçado (ou um impala) precisa descarregar toda a energia mobilizada para negociar essa ameaça ou se tornará uma vítima do trauma. A energia residual não vai simplesmente embora. Ela persiste no corpo e, com freqüência, força a formação de uma grande variedade de sintomas: por exemplo, ansiedade, depressão e problemas psicossomáticos e comportamentais. Esses sintomas são o modo do organismo conter (ou administrar) a energia residual não descarregada.

Os animais no ambiente selvagem descarregam instintivamente toda a sua energia comprimida e raramente desenvolvem sintomas adversos. Nós, humanos, não somos tão competentes nesse ambiente. Tornamo-nos vítimas do trauma quando somos incapazes de liberar essas forças poderosas. Podemos ficar presos a essas energias por nossas tentativas freqüentemente malsucedidas de descarregá-las. Sem saber, podemos criar repetidamente situações nas quais exista a possibilidade de nos libertar da armadilha do trauma, mas nas quais a maioria de nós falha por não ter os recursos e as ferramentas adequados, como uma mariposa que é atraída para uma chama. Infelizmente, o resultado é que muitos de nós ficamos crivados de medo e ansiedade e nunca somos totalmente capazes de nos sentir a vontade conosco ou com nosso mundo.

Muitos veteranos de guerra e vítimas de estupro conhecem bem demais este cenário. Eles podem passar meses ou mesmo anos falando sobre suas experiências, revivendo-as, expressando sua raiva, medo e tristeza, mas, sem passar pelas “respostas de imobilidade” primitivas e liberar a energia residual, freqüentemente permanecem presos ao labirinto traumático e continuam vivenciando desconforto.

Felizmente, as mesmas energias imensas que criam os sintomas do trauma, quando adequadamente acessadas e mobilizadas, podem transformar o trauma e nos impelir a novos níveis de cura, domínio e mesmo sabedoria. O trauma resolvido é uma grande dádiva, devolvendo-nos ao mundo natural de marés e fluxo, harmonia, amor e compaixão. Tendo passado os últimos 25 anos trabalhando com pessoas que foram traumatizadas de quase todos os modos concebíveis, acredito que nós, humanos, temos a capacidade inata não só de curar a nós mesmos, mas também a nosso mundo, dos efeitos debilitantes do trauma.

*1 – The Others – How Animals Made Us Human, Paul Shepard, Island Press, 1996.
* Distúrbio de Estresse Pós-Traumático (N. do T.).


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