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3 de setembro de 2010 | Sem categoria

Liana Netto

O corpo humano é nossa obra de arte mais imediata; expressando-nos através dele somos, ao mesmo tempo, criadores e criaturas.
Ele reserva, transforma, potencializa e provoca grande parte da nossa história, um verdadeiro acervo autobiográfico, que comprova nossa presença no plano físico, sujeito à constrição do tempo, do espaço e da sombra. O espírito desencarnado não tem sombra – não está radicado no aqui/agora, nem no devir. Junto com a sombra, o corpo contém a essência do que é estar vivo: a infindável tensão entre opostos, e a igualmente incessante busca da auto-regulação.
Todas as partes do corpo desempenham, em algum momento da vida, a função de símbolo estruturante do desenvolvimento psíquico; isso significa que diferentes partes fornecem, em diferentes momentos, inputs simbólicos que alimentam a discriminação da identidade psico-corporal. Esta será tanto mais rica quanto mais símbolos (em intensidade, variedade e qualidade) com possibilidade de elaboração puder comportar, sendo um processo permanente, mesmo diante de símbolos que já foram elaborados.
O símbolo, ao entrar na consciência, atualiza o inconsciente perante esta, e produz uma desarrumação da ordem vigente; apesar de necessário e criativo, o novo normalmente desacomoda e gera ansiedade.
A patologia psicológica é formada pelos símbolos impossibilitados de se expressarem pela luz normal da consciência, convocando defesas neuróticas, psicopáticas ou psicóticas à volta do conteúdo simbólico, todas elas também inscritas no corpo.
Essas experiências que requisitam fortes estruturas de defesa constituem os chamados complexos autônomos, que têm em seu núcleo uma experiência traumática, e pode ser identificado como um vórtice que assimila e congrega todas as experiências de caráter semelhante, sendo regido por um arquétipo.
Em circunstâncias comuns, as pessoas não prestam atenção à linguagem do corpo, às sensações corporais; a urgência da dor nos faz sair do automatismo, servindo de grande trampolim para o mergulho no desconhecido de nós mesmos, que nos ajuda a fazer da existência uma criação permanente, num âmbito em que a palavra apenas não dá conta. Ao viver criativa e adequadamente a realidade do corpo, temos a rica possibilidade de transformar alguns padrões de movimento, de tensão e de colapso, intervindo também sobre todas as dinâmicas psicológicas subjacentes a eles.
À medida que somos capazes de reconectar os processos conscientes e volitivos à dimensão do corpo (o inconsciente visível), sustentamos a competência homeostática do nosso organismo biológico, que se apresenta como um contra-vórtice curativo, com igual intensidade e direção oposta ao vórtice traumático, regido em seu núcleo também por um arquétipo.
Essa dinâmica, que se encontra sob domínio corporal e inconsciente, tem sua equivalência na psicodinâmica da relação Ego-Sombra, cujo espelhamento e equivalência delata tal movimento intrínseco da psique, de auto-regulação.
Quando nos tornamos por demais surdos à voz do corpo, podemos pensar que ele, em momentos críticos, nos traiu ou pregou peças, mas regido pela orientação do Self, o corpo só nos está corrigindo do desvio tomado unilateralmente, e por isso “modula sua voz” com a força necessária para dirimir o tamanho de nossa surdez.
O corpo vela – ou revela – o que rejeitamos, o que não ousamos, ou o que ignoramos. Uma escuta adequada às mensagens que surgem dele pode ser uma enorme fonte de sabedoria e transformação, auxiliando no trabalho psicoterápico tanto de forma diagnóstica quanto terapêutica.
Liana Netto é psicóloga clínica, professora e supervisora do Instituto Junguiano da Bahia e dos cursos de Experiência Somática, coordenadora do curso de Pós-graduação em  Psicotraumatologia Junguiana.

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