Liana Netto
A violência tem sido associada com o rápido crescimento populacional das áreas metropolitanas no Brasil, tendo se tornado um desafio nacional, uma vez que atingimos a desconfortável marca, em 2007, do país com maior prevalência de mortalidade por causas externas em todo o mundo.
A cada novo paroxismo de violência, “especialistas” são convocados para discorrer sobre suas “causas” nas páginas dos jornais ou no horário nobre das emissoras de televisão, com imagens e explicações inadequadas e frequentemente insatisfatórias, que tendem a provocar no espectador uma primeira resposta de comoção, mas que seguem levando-o a uma habituação e conseqüente banalização de situações potencialmente bastante traumáticas, como a que recentemente foi exposta, do garoto torturado com agulhas.
A exposição à violência, entretanto, vivida ou testemunhada, já foi claramente identificada na literatura especializada como um evento estressor importante associado com transtornos mentais. Diante de situações extremas, que nos faz reconhecer em nós mesmos a dor e a ameaça por que passa nosso semelhante, tocando nossa vulnerabilidade existencial, a habituação não pode gerar outra defesa senão a dissociação adaptativa daquela situação que, de outra maneira, não nos seria possível suportar.
Obviamente não pretendo declarar que a exposição à violência proporcionada pela mídia seja a causa do nosso rank mundial, mas gostaria de provocar uma reflexão no quanto esta exposição autoriza, e assim reforça, a violência interpessoal, intencional – a categoria de evento traumático mais danoso para o ser humano – como algo aceitável. É essa mesma violência que, com outras maquiagens, se reproduz no ambiente doméstico: no Brasil 10,1% das crianças de baixa renda sofrem, através de seus pais, graves abusos e espancamentos físicos, e dentre estes, 35,8% apresentam Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Investigando o papel desempenhado pelo TEPT na perpetuação da violência – intra e extero familiar – percebemos que violência física grave na infância gera uma probabilidade significativamente aumentada de tornar o indivíduo um futuro agressor. Sem muita surpresa, as pesquisas mostram também que o TEPT é comum não só entre as vítimas de abuso grave, mas também entre os pais destas, frequentemente os principais perpetradores.
Embora o TEPT seja o transtorno mental mais fortemente relacionado a situações de violência, uma de suas facetas menos conhecidas é a que o associa à transmissão do comportamento violento, principalmente o intergeracional.
Acredita-se que pais que padecem de TEPT em conseqüência de suas experiências pessoais de violência durante a infância têm maior risco de tratar abusivamente seus próprios filhos.
De fato, maus-tratos sofridos durante a infância tendem a ser mais prejudiciais que os traumas ocorridos mais tardiamente, em função das interações entre os sintomas de estresse pós-traumático e o processo de desenvolvimento psicológico. As experiências traumáticas infantis podem causar déficits permanentes no processo de regulação comportamental, cognitiva e emocional, que contribuem para limitar as habilidades dos pais de cuidar de sua prole e, em conseqüência, aumenta o risco de transmissão intergeracional de violência, abuso de substâncias e dificuldades de relacionamento.
A agressão psicológica também deixa graves seqüelas, e está significativamente correlacionada a sintomas depressivos, tendo um efeito devastador sobre a identidade e auto-estima, assim como sobre as crenças particulares do indivíduo a respeito de sua própria competência e valor. Ameaça e medo intensos, bem como agressões verbais, podem provocar vergonha extrema e imobilizadora, sensação de impotência e estabelecimento de comportamentos que prejudicam o estabelecimento de vínculos, a utilização de redes sociais de apoio e o acesso a recursos que poderiam ajudar a aliviar a dor psicológica.
Pessoas com história de violência e maus-tratos na infância são também mais suscetíveis aos efeitos do estresse diário, demonstrando uma diminuição de recursos de enfrentamento, e reportando mais sentimento de desamparo (subjetivo e muitas vezes real, pois encontra na família não proteção, mas ameaça); suas redes sociais de apoio são normalmente menores e menos satisfatórias, apresentam notável dificuldade de estabelecimento de vínculos efetivos e nutritivos, e possuem muitas vezes scripts pobres para os relacionamentos adultos saudáveis.
Podemos afirmar que suporte e estresse estão inversamente correlacionados de forma significativa, e aqui podemos identificar uma diretriz para a atenção às vítimas de violência. É no continente seguro e protegido (da família, dos amigos, do processo terapêutico) que o indivíduo experimenta o cadinho alquímico, onde pode transmutar sua experiência terrível, e refazer sua aliança com a vida.
Liana Netto é psicóloga clínica, professora e supervisora do Instituto Junguiano da Bahia e dos cursos de Experiência Somática, coordenadora do curso de Pós-graduação em Psicotraumatologia Junguiana.
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